Pressionada pela redução nos preços e pelo aumento nos custos, a pecuária leiteira se reinventa para garantir viabilidade no longo prazo. Uma nova aposta dá origem a condomínios de fazendas nos Campos Gerais, no Paraná, que oferecem redução de gastos e ganho de escala. A cadeia produtiva se vale da integração entre unidades vizinhas para se manter competitiva.

Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Universidade de São Paulo (USP), apontam que desde março de 2014 os custos de produção do leite subiram 9,78% no Paraná e 7,13% no Brasil. O índice leva em conta gastos como alimentação do rebanho, despesas de mão de obra e depreciação da infraestrutura. Como agravante, o preço médio pago ao produtor despencou 12,3% nos últimos 12 meses no estado.

Na visão de produtores e especialistas, o quadro só pode ser contornado com ganho de escala. “É preciso investir na propriedade. Trazer equipamentos e genética de ponta e melhorar a infraestrutura. Até porque as fazendas têm limitação de espaço, já que o preço da terra subiu muito”, contextualiza Mauro Sérgio Souza, gerente de pecuária da cooperativa Batavo, em Carambeí, nos Campos Gerais.

Justamente para garantir investimentos de peso e diluição de riscos é que associados da cooperativa decidiram formar condomínios leiteiros. É o caso da fazenda MelkStad – cidade do leite, em holandês –, que concentra em 18 hectares uma estrutura de ponta para o manejo e a ordenha de 600 vacas. O grande diferencial da propriedade é o carrossel de ordenha, que reduz em 30% os custos com mão de obra.

O modelo foi inspirado em fazendas dos Estados Unidos e foi financiado por seis sócios, dentre os quais o presidente da Batavo, Renato Greidanus. Conforme o zootecnista Diogo Vriesman, que ajudou a idealizar o projeto, a operação em conjunto dilui custos fixos e amplia a produtividade dos trabalhadores. “Como o volume de leite entregue para a cooperativa também é maior, conseguimos um bônus ”, detalha. Só com a escala de entrega, a remuneração sobe 2 centavos por litro, atingindo receita média de R$ 1,10/litro.

O sistema gera curiosidade, mas teve sua eficiência posta em xeque. “No começo ouvíamos piadas, o pessoal dizia que era muito sócio para pouco leite. Agora, muitos estão nos procurando para entender mais detalhes do sistema”, conta. Há na região uma estrutura semelhante, vinculada à Cooperativa Witmarsum. No resto do país só existe o uso do sistema com tecnologias mais antigas.

Vriesman revela que os planos são de continuar crescendo. “O investimento vai levar entre 10 e 12 anos para se pagar. Quanto mais rápido expandir (o condomínio) melhor”, diz. A meta é triplicar o número de vacas até 2019, chegando a 1.800 animais. Para isso será necessário contratar apenas oito novos funcionários – hoje a estrutura exige 17 trabalhadores. “Queremos ser os mais eficientes, e não os maiores.”

Entenda como funciona o carrossel de ordenha

A grande vantagem do sistema é a redução nos custos com mão de obra. Entenda como funciona esse tipo de estrutura:

Criação das vacas
O rebanho é criado em regime de confinamento, em estruturas cobertas que possuem interligação com a entrada do sistema de ordenha. As vacas gostam de seguir rotinas, o que as faz seguir naturalmente para a ordenha. Além disso, o úbere cheio de leite causa desconforto ao animal, criando um motivo extra para seguir rumo às ordenhadeiras.

Início da ordenha – No caminho para a sala de ordenha os animais passam sob nebulizadores, que ajudam a garantir conforto térmico e fazem a higienização das vacas. Ao chegar na entrada do carrossel um operador fixa as ordenhadeiras no úbere dos animais. O processo é feito três vezes por dia: as 11h, 15h e 19h.

(Fotos: Josué Teixeira/Gazeta do Povo)

(Fotos: Josué Teixeira/Gazeta do Povo)

Vacas em rotação
O carrossel comporta até 50 vacas simultaneamente, e o sistema de rotação facilita a operação ao mesmo tempo em que gera conforto para os animais. Em cerca de 10 minutos o sistema atinge a capacidade máxima de vacas, que são completamente ordenhadas em apenas cinco minutos.

Encerramento
Ao encerrar a ordenha e completar a rotação, as vacas esbarram em um pequeno tambor, que faz os animais deixarem a estrutura. Todas as vacas possuem um chip e, caso haja alguma anomalia na produção diária, um sistema de cancelas faz a segregação dos animais, para que seja feito o manejo adequado.

Eficiência
O sistema garante produção média de 33 litros de leite por vaca diariamente. A meta dos sócios do condomínio é chegar a 37 litros/dia. As 600 vacas rendem 11,4 mil litros/dia e exigem 17 funcionários para dar conta de toda a operação.

R$ 1,10/Litro
é o preço médio pago pelo leite dos condomínios. Valor é 10% superior à média de região de Ponta Grossa (R$ 1/ l.). Além do ganho na venda, a expectativa é obter economia média de 30% nos gastos com mão de obra em relação as demais propriedades. Na fase inicial do projeto, com um terço da capacidade operacional, a renda ainda caminha próxima aos custos.

10% de alta
no custo do leite e 12% de queda no preço ao produtor em um ano forçam a pecuária leiteira a buscar alternativas mais sustentáveis. A redução nos gastos vem de investimento em tecnologia que diminui a necessidade de mão de obra e eleva a escala – e que não dispensa evolução em genética e bem-estar animal.

Fonte: Gazeta do Povo