Há 27 anos, o líder seringueiro Chico Mendes morreu em defesa do ideal de preservação da floresta Amazônica. Hoje, além de toda a lembrança dessa luta, existe também uma reserva que leva o seu nome. Ela fica no Acre e é a maior reserva extrativista do país. Em boa parte da reserva, o extrativismo ainda é a principal fonte de renda das famílias.

Na cidade de Xapuri, os moradores guardam a memória de Chico Mendes e sua luta em defesa da floresta. Um museu preserva sua história. A casa onde ele morava é ponto turístico e um museu preserva a sua história.

Em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi assassinado quando saía na porta do quintal. Os assassinos, um fazendeiro e o filho, foram condenados a 19 anos de prisão. Cumpriram a pena e hoje já estão em liberdade.

A Reserva Chico Mendes foi criada em 1990 para colocar em prática o sonho do líder seringueiro. Grande parte da área fica entre os municípios de Xapuri e Brasileia. É a maior reserva extrativista do país – quase um milhão de hectares –  e abriga cerca de duas mil famílias. O leite da borracha é matéria-prima das mais importantes da região e grande parte vem da Reserva Extrativista.

O preço do látex nunca esteve tão bom. Os seringueiros recebem R$ 8 por quilo de látex, 300% acima do preço praticado na produção dos seringais plantados em outras regiões do país. Há duas explicações para isso: valorizar o trabalho de quem extrai das árvores nativas na Amazônia e preservar a floresta.

Com a experiência de quem nasceu e cresceu na floresta, o seringueiro Gerson da Silva sabe bem o que é extrair da natureza o sustento da família e com a consciência de quem não se preocupa apenas em ganhar dinheiro. “A floresta para nós representa várias coisas. É até uma mãe para nós. Eu sinto por ela um amor, nasci e me criei até hoje na floresta e não tenho muita ideia de sair para a cidade” – orgulha-se ele.

Um grupo de 300 seringueiros da reserva já tem comprador certo e com a vantagem de nem precisar sair de casa para entregar o produto. A coleta dos seringais é levada para uma fábrica de preservativos em Xapuri. Ela processa 250 toneladas de látex por mês e 70% vêm da reserva extrativista. A compensação financeira, três vezes acima do valor regional, estimula mais ainda os seringueiros, segundo a diretora da fábrica, Dirlei Bersch.

– O látex no Acre e o látex associado à produção de preservativos, ele agrega um serviço ambiental. Por isso ele tem uma remuneração superior ao preço de mercado – compara Bersch.

Uma usina de beneficiamento de castanha do Pará, ou castanha do Brasil, mais um produto extraído na região, também fica em Xapuri, perto da reserva, e pertence a uma cooperativa com dois mil produtores. Todo ano, na época da colheita, que vai de janeiro a abril, mais de sete mil toneladas chegam de vários pontos da floresta. A produção brasileira passa de 38 mil toneladas por ano. Só o estado do Acre responde por 35% e a colheita é feita na base do facão.

A castanha no passado não era toda aproveitada. Como ela começou a dar preço, quase que a gente não deixa castanhas para as cotias comerem”, conta Manoel José da Silva, presidente da Cooperacre.

O primo de Chico Mendes, Raimundo Mendes de Barros, que ainda mora na reserva, se orgulha de viver o extrativismo: “Eu tiro aqui 250, 300 latas de castanha por ano. Vendido a R$ 30 dá R$ 8 mil por ano. Também vendo banana, seringa, abacaxi, ovos, galinha, pato. A gente consegue juntar renda pra sobreviver com a família”.

Ninguém reclama na reserva nem da castanha nem da borracha. Mas outra atividade provoca muita polêmica: a extração de madeira. Há uma serraria que funciona legalmente dentro da unidade de conservação. O lugar tem um plano de manejo florestal aprovado pelos órgãos ambientais.

No plano, algumas árvores são selecionadas para o corte, mas sempre deixando a maioria dos exemplares da mesma espécie em pé, que irão garantir a regeneração daquela área desmatada da floresta.

Os produtores criaram uma cooperativa que se encarrega da extração e comercialização para explorar o manejo. As famílias, de 5% do valor final. São R$ 60 por metro cúbico de madeira pelas árvores licenciadas, aquelas que podem ser retiradas da floresta. Mas quem ganha mais dinheiro nessa história vive fora da reserva.

Alexandre Nogueira é um jovem empresário. O negócio dele é comprar as toras da cooperativa, serrar e vender na cidade. A cooperativa entregou ao empresário por R$ 350 o metro cúbico que o assentado vendeu por R$ 60,00. Alexandre revende a mesma madeira por R$ 1,2 mil a 1,3 mil. “Eu não diria justo. É que o mercado meio que obriga a esse preço” – diz Alexandre.

Segundo Tião Aquino, presidente da associação dos produtores da reserva, nem toda árvore é extraída de forma legal na Chico Mendes: “Há invasores retirando madeira e há o próprio morador também de forma clandestina e não regulamentada”.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, do início da sua criação até o fim de 2013, a Reserva Extrativista Chico Mendes perdeu 5% de sua cobertura vegetal, mais de 46 mil hectares.

Fonte: Globo Rural